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Como são hackeadas as eleições na América Latina

O colombiano preso por espionagem relata pela primeira vez como influenciou as votações em toda a América Latina por meio de fraudes online. Andres Sepúlveda está preso na penitenciária La Picota, em Bogotá, Colômbia, cercado das mais rígidas medidas de e segurança, porque já o tentaram matar. A revista da Bloomberg, a Businessweek, explica: Sepulveda trabalhou com sabotagem cibernética e fraudes para diversas campanhas de candidatos a presidente na América Latina – todos de direita – no maior jogo sujo da política na rede que se tem notícia.

Entre eles, dois pseudos “heróis” da mídia: o mexicano Enrique Peña Nieto, saudado por estar quebrando o monopólio estatal sobre o petróleo do México, e Henrique Caprilles, o “líder democrático” da Venezuela que desafia o presidente Nicolás Maduro.

A carreira de Sepúlveda começou em 2005, e seus primeiros trabalhos foram de pequena monta, ele foi contratado para desfigurar sites de campanhas e invadir bancos de dados dos doadores dos adversários. Dentro de alguns anos, ele estava com diversas equipes montadas que faziam de tudo em diversas campanhas presidenciais em toda a América Latina. Ele não custava barato, mas seus serviços eram extensos. Por US $ 12.000 por mês, um cliente contratou uma equipe que poderia clonar smartphones, e clonar páginas Web, e enviar e-mails e textos em massa. O pacote premium deste hacker, era de US $ 20.000 por mês, incluindo uma gama completa de intercepções digitais, ataque, descriptografia e defesa. Os trabalhos foram cuidadosamente feitos através de diversas camadas de intermediários e consultores. Sepúlveda diz que muitos dos candidatos que ele ajudou pode até não ter sabido sobre o seu papel; ele diz que encontrou apenas alguns.

As equipes de Sepúlveda trabalharam em eleições presidenciais na Nicarágua, Panamá, Honduras, El Salvador, Colômbia, Costa Rica e Guatemala, além daqueles dois países. No Brasil ele não menciona ter atuado, mas admite que alguns de seus comparsas eram daqui e produziam os “melhores” malwares para invadir sistemas de computação.

Sepúlveda acabou sendo preso por sabotar o processo de pacificação colombiano, colocado em prática pelo Presidente Juan Manuel dos Santos, contra a vontade de seu antecessor, Alvaro Uribe, outro “herói” do neoliberalismo.

Com o passar dos anos, ele reuniu equipes que espionaram, roubaram e difamaram candidatos por toda a América Latina. O serviço não era barato: variava de US$ 12 mil a US$ 20 mil por mês.

“Meu trabalho era fazer guerra suja e psicológica, propaganda negativa e espalhar rumores – o lado da política que ninguém sabe que existe, mas é perceptível”, diz Sepúlveda, condenado a 10 anos de prisão por espionar a campanha do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, à reeleição em 2014.

O hacker diz que a maioria de seus projetos foram contratados pelo venezuelano Juan José Rendón, um consultor político conservador com base em Miami conhecido como “Karl Rove da América Latina.

Rendón admite conhecer Sepúlveda, mas nega tê-lo contratado para projetos ilegais. “Eu conversei com ele uma ou duas vezes em um grupo de discussões sobre a internet”, diz. “Mas eu não faço nada ilegal. Há a campanha negativa, mas ela não é ilegal. Não sou um santo, mas também não sou nenhum criminoso.”

Segundo Sepúlveda, Rendón percebeu que os hackers têm um papel crucial nas campanhas eleitorais modernas. O papel deles é lançar publicidade negativa, investigar o rival e desencorajar a participação nas urnas. O diferencial de Sepúlveda foi entender o poder de robôs virtuais para influenciar a discussão política na internet. Relativamente baratos, esses perfis falsos foram desenvolvidos com base em um programa criado por ele, o Social Media Predator.

Com o software, o hacker percebeu que poderia manipular o debate eleitoral como se movesse peças num tabuleiro de xadrez. “Quando eu percebi que as pessoas acreditam na internet mais do que creem na própria realidade, descobri que tinha o poder de convencê-las de qualquer coisa”, afirma.

Sepúlveda conta que seus pagamentos eram feito em dinheiro vivo. Ele viajava sozinho com documentos falsos e se hospedava em um hotel, onde montava seu equipamento e recebia orientações de seus contratantes. A linguagem das ordens frequentemente era em código: “agradar” significava atacar e “ouvir música”, era grampear telefonemas. Com o fim da eleição, tudo era destruído.

Para os projetos nos quais era contratado, Sepúlveda contava com hackers de diversos países americanos. Além de suas viagens, ele tinha uma equipe montada em Bogotá com brasileiros, argentinos, equatorianos e venezuelanos – cada um com uma atribuição específica. Dos 9 países em que trabalhou, apenas em um deles deixou de lado a discrição: a Venezuela. Na eleição de 2012, quando trabalhou para Henrique Capriles contra Hugo Chávez, ele hackeou o e-mail e o Twitter de Diosdado Cabello, um dos líderes do chavismo. Em 2013, ele invadiu o Twitter do presidente Nicolás Maduro. O governo venezuelano bloqueou o acesso à internet no país por 20 minutos depois da invasão.

“Sepúlveda diz que trabalhou comigo em 20 países, mas a verdade é que ele não fez isso”, acrescenta Rendón. “Eu nunca paguei a ele um peso colombiano.”

A trajetória de Sepúlveda acabou na campanha pela reeleição do presidente Juan Manuel Santos, na Colômbia. Em 2014, Sepúlveda e JRendón seguiram caminhos distintos. O colombiano preferiu embarcar no projeto do ex-presidente Álvaro Uribe de condenar a negociação de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e eleger Óscar Zuloaga, enquanto o venezuelano foi trabalhar com Santos. Sepúlveda julgou que Rendón preferiu o dinheiro aos princípios conservadores.

O hacker diz ter montado um plano com o chefe de campanha de Zuloaga, Luis Alfonso Hoyos, para desacreditar os relatos de Santos de que a violência diminuiu com as negociações de paz. Telefones e e-mails de ao menos cem guerrilheiros das Farc foram grampeados, entre eles o do chefe da guerrilha, Rodrigo Lodoño, o Timochenko.

Após conseguir ilegalmente documentos que mostravam as Farc pressionando camponeses a votar, Sepúlveda apareceu na TV colombiana para mostrar as provas.

Um mês depois, ele foi preso por espionagem. Ele atribui sua prisão à falta de cuidado ao se expor em rede nacional. Por envolver-se ideologicamente com a campanha em seu país, deixou de obedecer a seus critérios corriqueiros de segurança em outros projetos.

Sepúlveda foi levado à prisão de La Picota, em Bogotá. Dias depois de sua chegada, foi vítima de uma emboscada de detentos armados com facas. Foi salvo pelos guardas e, desde então, é protegido com coletes à prova de balas em uma cela vigiada.

Após sua prisão, autoridades colombianas indiciaram Hoyos por espionagem, mas ele fugiu para Miami. Sempre que deixa o presídio em um veículo blindado, Sepúlveda está acompanhado de seis motocicletas. O sinal de celular ao longo do trajeto é bloqueado para evitar que ele seja rastreado.

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