Lobby dos EUA pró-censura durante o governo militar brasileiro

Em 1973 o governo do general Emílio Garrastazu Médici entrava em seu quarto ano, consolidando a presença da chama “linha dura” militar no governo. A censura à imprensa se estruturou e se oficializou, abarcando todos os principais veículos de imprensa do país. Sob Médici, a maioria das redações recebiam bilhetinhos apócrifos ou ligações quase diárias de membros da Polícia Federal – a força encarregada de controlar a censura – com a relação de temas que não poderiam ser abordados: desde relatos de tortura e prisões políticas até reportagens sobre a precária situação dos trens, a pobreza no país ou escandalosos casos de corrupção. Outras, como Veja e o Pasquim, tinham que enviar seu conteúdo para a censura prévia. O Estado de S. Paulo convivia com um censor plantado dentro da redação, lendo todos os textos para decidir o que podia e o que não podia ser publicado.

Para os Estados Unidos, porém, país que propagandeava a democracia como resposta à “ameaça comunista”, nada disso importava. Pelo contrário, diversos documentos constantes no PlusD, do WikiLeaks (https://search.wikileaks.org/plusd/), mostram que a diplomacia americana chegou a defender a censura do regime militar brasileiro perante um jornalista da poderosa rede de TV americana CBS.

“O cônsul geral de São Paulo relata que o correspondente da CBS na América Latina, George Nathanson, está em São Paulo, fazendo um vídeo sobre a censura à imprensa brasileira. A ideia de realizar essa história foi incitada pelo artigo do New York Times de 21 de feveriro sobre esse assunto”, escreveu o então embaixador dos EUA no Brasil de 1970 a 1973, William Rountree.

A partir de 1975, a censura se tornou mais seletiva e a censura prévia foi sendo retirada aos poucos. Não foi um processo decisivo, tendo idas e vindas de acordo com as pressões do momento, como mostram as conversas constantemente relatadas pelos diplomatas americanos. Em 4 de abril daquele ano, a embaixada em Brasília enviou a Washington um relato sobre a apreensão do jornal Pasquim, do Rio de Janeiro, pela PF, ocorrida logo depois do veículo ter tido a censura prévia encerrada, e a uma edição comemorativa especialmente robusta. Chamando-o de “tabloide satírico semanal de centro-esquerda” Crimmins relata que, durante 5 anos, o semanário fora obrigado a enviar para Brasília duas a três vezes mais material do que necessário – texto, charges e fotos – para ser cortado.

https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1975BRASIL02535_b.html

1. DURING LAST WEEK OF MARCH GEISEL GOVERNMENT ABRUPTLY
ENDED FIVE YEARS OF PRIOR CENSORSHIP TO LEFT OF CENTER,
SATIRICAL, WEEKLY TABLOID PASQUIM. JOURNAL WAS FOUNDED
IN 1969; SINCE 1970 IT HAS BEEN SUBJECTED TO PRIOR
CENSORSHIP CARRIED OUT IN BRASILIA. JOURNAL OBLIGED
TO SEND EACH WEEK TO BRASILIA BETWEEN TWO AND THREE
TIMES AS MUCH MATERIAL (TEXT, CARTOONS AND PHOTOS)
AS NEEDED FOR EACH ISSUE. CENSORS RETURNED ALL MATERIAL
WITH CENSORED ITEMS CROSSED OUT. THIS FIVE YEAR CENSORSHIP
CARRIED OUT ON POLITICAL GROUNDS PRESUMABLY UNDER
EXTRADORDINARY POWERS OF AI-5 RATHER THAN UNDER NORMAL
CENSORSHIP STATUTE WHICH SEEKS TO PROTECT PUBLIC MORALS.

PAGE 02 BRASIL 02535 071608Z

2. FOLLOWING WEEK (MARCH 31) MINISTER OF JUSTICE
FALCAO ORDERED FIRST UNCENSORED ISSUE OF PASQUIM,
(NO. 300, MARCH 29 TO APRIL 4, 1975) SEIZED UNDER NORMAL
CENSORSHIP STATUTE FOR CONTINING MATERIAL CONSIDERED
OBSCENE AND OFFENSIVE TO PUBLIC MORALS. MINISTER ALSO
ORDERED POLICE INQUIRY TO ESTABLISH CRIMINAL RESPONSIBILITY
FOR THE OFFENSE. ACCORDING TO PRESS STORIES ON THE
SEIZURE, SOME OF THE MATERIAL CONSIDERED MOST OFFENSIVE
BY THE GOVERNMENT WAS A CARTOON ABOUT MRS. JACQUELINE
ONASSIS AND AN ARTICLE BY MILLOR FERNANDEZ, PASQUIM’S
DIRECTOR, COMMENTING IN GROSS TERMS ON THE LUCRATIVE-
NESS OF HER SIX-YEAR MARRIAGE TO THE DECEASED GREEK
MAGNATE. IN THIS CONNECTION, THE JUSTICE MINISTRY
ALSO ORDERED THE SEIZURE OF THE APRIL 5 ISSUE OF
MANCHETE BECAUSE IT CONTAINED NUDE PHOTOGRAPHS OF
MRS. ONASSIS TAKEN BY A HIDDEN PHOTOGRAPHER ON SKOR-
PIOS, ALSO CONSIDERED OFFENSIVE TO PUBLIC MORALS.
WHEREAS THE PASQUIM SEIZURE WAS ORDERED THE DAY BE-
FORE IT WAS TO GO ON SALE, THE ORDER TO CONFISCATE
THE OFFENDING ISSUE OF MANCHETE WAS PROMULGATED
ONLY SEVERAL DAYS AFTER THE MAGAZINE REACHED THE NEWS-
STANDS. THE RESULT WAS THAT VERY FEW COPIES OF MANCHETE
ACTUALLY WERE SEIZED.

3. ACCORDING TO MILLOR FERNANDEZ AND OTHER INFORMED
PRESS SOURCES, THE REAL TARGET OF THE SEIZURE OF PASQUIM
WAS A STRONG EDITORIAL BY FERNANDEZ DETAILING THE JOURNAL’S
PROBLEMS WITH CENSORSHIP. THESE PROBLEMS INCLUDED: A
SEVERE DROP IN READERSHIP (FERNANDEZ CLAIMED A DROP
FROM TWO HUNDRED TO ONE HUNDRED THOUSAND CIRCULATION
IN THE FIRST SIX MONTHS OF CENSORSHIP; SOME OBSERVERS
BELIEVE PRESENT CIRCULATION TO BE ABOUT FIFTY THOUSAND),
AND HARASSMENT OF THE PASQUIM STAFF WHEN CENSORSHIP
INITIATED (E.G. POLICE
INTERROGATION OF MOST OF THEM AND JAILING OF TEN EDITORS
FOR TWO MONTHS FOLLOWED BY THEIR RELEASE AND THE SUB-
SEQUENT SHELVING OF THE INQUIRY). FERNANDEZ ALSO MADE
THE POINT THAT LACK OF PRIOR CENSORSHIP DOES NOT MEAN
BRAZILIAN PRESS FREE TO PRINT WHAT IT WISHES AND REMINDED
HIS READERS THAT SEVERAL BRAZILIAN JOURNALS STILL SUB-
JECT TO PRIOR CENSORSHIP. THE SEIZED ISSUE OF PASQUIM

PAGE 03 BRASIL 02535 071608Z

WAS EXPECIALLY LARGE IN COMMEMORATION OF THE ENDING OF
CENSORSHIP (40 PAGES VERSUS THE USUAL 28). ALTHOUGH
VAST MAJORITY OF COPIES OF THE ISSUE WERE SEIZED, IT
WAS STILL ON SALE IN A FEW RIO DE JANEIRO NEWSPAPER
STANDS TWO DAYS AFTER THE SEIZURE ORDER. SINCE THE
JOURNAL DEPENDS ON SALES IN THE STANDS RATHER THAN
SUBSCRIPTION, IT HAS BEEN DEALT A SEVERE ECONOMIC
BLOW. FERNANDEZ ESTIMATES HIS LOSSES AT ABOUT TWO
HUNDRED THOUSAND CRUZEIROS. HE EXPECTS A DESULTORY
POLICE AND JUDICIAL INVESTIGATION SINCE THE GOVERNMENT’S
OBJECTIVE ALREADY ATTAINED.

4. COMMENT: THE GEISEL GOVERNMENT HAS ONCE AGAIN
SHOWN THAT DESPITE A COMMITMENT TO AND PROGRESS TOWARD
DISTENCAO THIS PROCESS WILL TAKE PLACE AT ITS OWN PACE.
THE GOVERNMENT ALSO DEMONSTRATED ITS ABILITY, AS IN THE
CHICO PINTO CASE, TO ACHIEVE ITS PURPOSE WITHOUT USING
AI-5. NEVERTHELESS, DESPITE THE SEIZURE OF ONE ISSUE,
PASQUIM, AS OF THIS WRITING, HAS BEEN REALEASED FROM
PRIOR CENSORSHIP AND, IN THE NET, THAT IS A STEP FORWARD.
ONLY OPINIAO, TRIBUNA DA IMPRENSA, VEJA, AND THE CATHOLIC
ARCHDIOCESAN PAPER O SAO PAULO REMAIN SUBJECT TO PRIOR
CENSORSHIP IN BRAZIL AND PRESS SOURCES HARBOR MUTED
BUT INCREASED HOPE THAT THEY TOO WILL BE RELEASED.

DEXTER
UNQUOTE
CRIMMINS

Imprensa era controlada na Ditadura Militar

A PF seria responsável por calar a imprensa; no ano seguinte, dezenas de delegados destacados para esse fim receberam uma extensa lista de normas. Eles deviam vetar notícias “falsas” ou sensacionalistas, testemunhos em “off” (com fontes anônimas), comentários de pessoas atingidas pelos atos institucionais ou ligadas a entidades estudantis dissolvidas. Também eram proibidas notícias sobre todo tipo de repressão: cassações de mandatos, suspensão de direitos políticos, prisões, tortura.

Em 1971 o ministro da justiça Alfredo Buzaid aumentou a lista, proibindo também notícias “sensacionalistas” que prejudicassem a imagem do Brasil no exterior, notícias que colocassem em perigo a política econômica do governo, e até mesmo a “divulgação alarmista” de “movimentos subversivos” em países estrangeiros. Segundo levantamento do jornalista Élio Gaspari, entre 1972 e 1975 o Jornal do Brasil recebeu 270 ordens enviadas por telefone ou por escrito pelos policiais da PF. Apenas em 1973 – ano em que os diplomatas americanos queriam suavizar a cobertura da CBS sobre a censura brasileira – o pesquisador Paolo Marconi – consultando diversos veículos como Folha de S. Paulo, Rádio e TV Bandeirantes, em São Paulo, e Rádio e TV, em Salvador – contabilizou um total de 143 ordens enviadas pela PF. A maioria dos veículos praticava, então, a auto-censura, descartando os temas proibidos. É o caso da Globo de Roberto Marinho e do Jornal do Brasil de Nascimento Brito, apontados pelo embaixador como menos críticos à censura oficial.

Os veículos que mostravam alguma resistência tinham edições inteiras apreendidas ou eram submetidos à censura prévia – caso do Jornal da Tarde e da Revista Veja, então comandada por Mino Carta, que eram visitados por censores ou obrigados a mandar as edições antes de publicadas para a sede da PF em Brasília. Convivendo diariamente com um censor da PF, o Estado de S. Paulo teve 1136 reportagens censuradas entre março de 73 e janeiro de 75. Foram vetadas matérias sobre a Petrobrás, a questão indígena, a política de saúde pública, corrupção no ensino e até mesmo racismo no futebol.

https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1973BRASIL01268_b.html

1. AMCONGEN SAO PAULO REPORTS CBS LATIN AMERICAN CORRES-
PONDENT GEORGE NATHANSON IS IN SAO PAULO DOING CBS
FILM STORY ON CENSORSHIP OF BRAZILIAN PRESS. IDEA FOR
STORY WAS PROMPTED BY NEW YORK TIMES ARTICLE ON THIS
SUBJECT ON FEBRUARY 21. NATHANSON HAD BEEN FILMING IN
OFFICES OF O ESTADO DE SAO PAULO. O ESTADO HAD BEEN VERY
COOPERATIVE AND NATHANSON SAID HIS PICTURES HAD TURNED OUT
” VERY WELL.” NATHANSON MAY BE CONTACTING OTHER NEWSPAPERS
AS WELL.

2. DURING LUNCHEON WITH NATHANSON LAST WEEK, PAO SUGGESTED
THAT NATHANSON ATTEMPT TO GET ALL SIDES OF THE CENSORSHIP
STORY IN BRAZIL. IN ADDITION TO TALKING TO JUST MEDIA
SOURCES VEHEMENTLY OPPOSED TO AND AFFECTED BY PRESENT
CENSORSHIP, PAO MENTIONED IT MIGHT BE USEFUL FOR NATHANSON

PAGE 02 BRASIL 01268 091554 Z

TO TALK TO SUCH FIGURES AS PRESIDENTIAL ADVISER COLONEL
OCTAVIO COSTA AND OTHER GOVERNMENT OFFICIALS, AS WELL AS
MEDIA REPRESENTATIVES SUCH AS O GLOBO’ S ROBERTO MARINHO
AND JORNAL DO BRASIL’ S NASCIMENTO BRITO, WHO VIEW THE
CENSORSHIP ISSUE DIFFERENTLY THAN O ESTADO’ S MESQUITA FAMILY.
NATHANSON EXPRESSED INTEREST IN THIS APPROACH TO GIVE
BALANCE TO HIS COVERAGE.
ROUNTREE

LIMITED OFFICIAL USE

Próximo

Anterior

Deixe seu comentário

© 2009-2017 Intrometendo | Anuncie | Sobre | Política de Privacidade

Todos os direitos reservados. Desenvolvido por Alló Digital