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Instinto de Rebanho da Humanidade

O homem moderno teme a solidão porque se enojou de si mesmo e porque se desaprendeu de si e sente-se impotente quando está só, sem a explicação moral do todo, refém do instinto da obediência, sem a paz do rebanho, sem a resposta da massa, sem o pressuposto do bem-estar e da felicidade eterna. Padronizado sob o estalão da coletividade, nivelado sob a pseudo-virtude da igualdade, o homem moderno teme a si mesmo e foge. Longe da moral do ovil e de sua laicizada versão moderna da administração da produção e do consumo (o fenômeno da massa capitalista), ele não sabe quem é. Sujeitado, rende-se ao todo e passa a formular e obedecer às regras morais que apregoam a igualdade no lugar da singularidade, o rebaixamento no lugar da grandeza, a banalidade no lugar da criatividade, a democracia e a escravidão no lugar da aristocracia.

Esta inversão dos valores, conseqüência do predomínio da moral de rebanho, é o território para o qual é enviado o novo filósofo, como um espírito livre ao qual exige-se probidade intelectual, que significa desconfiança em relação às suas próprias idéias e pensamentos, reconhecendo-os tão só como mais uma máscara e interpretação, gerada na solidão, plasmada no isolamento. O filósofo, aquele que aprende a viver sozinho.

O ser humano está atualmente muito sem personalidade, todos estão virando “massa de manobra” seja da grande mídia, das ações “político partidárias”, da religião e de outras instituições que tem o controle da “opinião pública”. A imprensa nem precisa mais se censurar, ela mesma virou a própria censura, onde apenas os interesses de poucos, são colocados como verdadeiros em relação aos interesses de muitos, e o grande público, (rebanho) nem sabe o que está ocorrendo.

Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avaliação e uma classificação hierárquica dos instintos e dos atos humanos. Essas classificações e essas avaliações são sempre a expressão das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: é aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe é útil em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro -, que serve também de medida suprema do valor de qualquer indivíduo. A moral ensina a este a ser função do rebanho, a só atribuir valor em função deste rebanho, o rebanho seria como uma engrenagem de uma máquina e as pessoas seriam as peças. Variando muito as condições de conservação de uma comunidade para outra, daí resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. A moralidade é o instinto gregário no indivíduo.

No mundo que é vontade de poder, interpretar é doar sempre um sentido novo, já que nenhuma interpretação esgota em si todo o sentido e nenhum sentido possibilita que uma interpretação possa ser reconhecida como a interpretação, completa e absoluta. Interpretar é reconhecer que não existe um sentido original: a interpretação não pode se pretender o texto mesmo, ou seja, ela é flexível e pretende-se não como a verdade em si, malgrado mantenha o compromisso com ela, a interpretação reconhece que é uma verdade, derivada de uma determinada vontade de poder – e não a verdade.

A interpretação nega qualquer perspectiva supra-histórica, para estabelecer-se na efetividade do conflito, onde não há constância, nem unidade, nem totalidade. Deriva daí que a busca do sentido não é o objetivo mesmo da interpretação, mas esta apenas se caracteriza como uma possibilidade de algum sentido, manifestação da criatividade do intérprete frente a outros sentidos já preexistentes: toda interpretação está em relação (em resistência) com outras interpretações já consolidadas, cabendo ao intérprete a tarefa de rearranjar e reordenar os espaços de sentido de acordo com a nova vontade de poder atuante, numa constante transitoriedade, fomentadora de novos resultados.

Desta forma, a tensão das forças rege a reorganização de sentidos, a partir de uma multiplicidade disforme até uma certa coesão, possibilitando uma nova definição hierárquica, onde a vitória de uma força sobre outra não é sua anulação ou aniquilação, mas um “sobrepujar”, um “predomínio”. A força só é força exteriorizando-se, ou seja, atuando, sem suprimir a alteridade, que neste caso, não só é necessária como indispensável. A vitória de um determinado sentido não é uma letargia ou um aniquilamento, porque a força não se torna estática, mas continua sempre em constante tensão com a força jugulada no primeiro embate. Isso faz com que toda interpretação seja provisória, já que não há uma formação definitiva e pronta das forças em confronto (e nem uma interpretação que seja definitiva, conquanto isso a transformaria em texto), tratando-se, antes, de um processo infinito de “processos de dominação”. Sendo assim, não há lugar mais para a antítese verdadeiro-falso, já que cada interpretação é resultado da força vitoriosa, de uma determinada vivência, de um determinado grau de vontade de poder do intérprete, além do que, ao não existir um texto por trás da máscara, não há pergunta possível a respeito da veracidade ou falsidade da mesma, dado que não existe um critério de avaliação. A noção de interpretação nos leva à conclusão de que não existem ações que possam ser consideradas morais em si, porque este critério não passa de uma interpretação derivada de determinada vontade de poder.

A coletividade como medida moral tem levado ao auto-aniquilamento do homem, ao servilismo, à automutilação e ao auto-escárnio, sendo o fermento da décadence. Toda moral que se deixa guiar por este espírito gregário acaba sendo, fundamentalmente, uma moral vulgar, negadora da vida, uma moral da conformidade, da conciliação, da harmonia, da estática e não da dinâmica, da baixeza e da igualdade, como ocorre no cristianismo e no socialismo, exemplos da moral que se elevou no Ocidente.

Esta moral de rebanho causadora da doença e da degenerescência do animal homem torna a coletividade o instinto fundamental e o identifica como objetivo último e sagrado da vida e, portanto, mais importante elemento na construção da “felicidade”, associada com a vida no rebanho, instinto da fraqueza e do rebaixamento. Se a felicidade do forte é uma derivação de sua própria constituição e se consolida não numa base artificial (reativa), mas justamente na união da alegria com a ação, no sentido de plena realização de todas as suas potencialidades, através de seu sim inicial à vida; no fraco, pelo contrário, chega pela negação da ação, pela apatia frente à vida, pelo repouso e pela paz: a felicidade, ao nível dos impotentes, os obstruídos, os de sentimentos hostis e venenosos, aparece sob a forma de estupefação, de sonho, de repouso, de paz, numa palavra, sob a forma passiva. No forte, a felicidade deriva da atividade e da auto-afirmação de si. No fraco, da passividade e da coletividade, da negação do outro.

Colocar a coletividade como critério único do juízo moral é negar a individualidade e a diversidade de homens, épocas e culturas em nome de uma felicidade que, ao invés de afirmar a vida, concorre para o seu esgotamento. Os filósofos e estudiosos da moral não se preocuparam em realizar uma crítica à moral, uma pergunta sobre o valor da moral, tendo-se envolvido numa busca desenfreada pela fundamentação da moral sem se preocupar com os “problemas da moral”. Ao invés de se empenharem no estudo das várias morais, suas diferenças pelas épocas e culturas, os filósofos da moral detiveram-se no conhecimento grosseiro e superficial dos facta morais, num excerto arbitrário ou compêndio fortuito, como moralidade do ser ambiente, de sua classe, de sua Igreja, do espírito de sua época, de seu clima e de seu lugar. Limitados aos fenômenos e à estreita medida das ações, os filósofos esqueceram que toda moral é interpretação e não alcançaram senão a superfície, já que a história da moral, tal como foi contada até aqui, reduziu-se à história dos fenômenos morais.

A civilização encontra-se no limiar de um terceiro e novo momento, designado como período extramoral, que coloca o valor de uma ação na sua não-intencionalidade, que, como critério de avaliação moral, coloca-nos frente ao conceito de interpretação. É este – e não a intencionalidade – o primeiro movimento moral, como um movimento mais basilar que ocorre no próprio homem, reflexo do mundo como vontade de poder, levando a cabo até a auto-superação da moral. As duas primeiras etapas da moral, à qual se limitaram os filósofos até então, estão demarcadas pela avaliação das ações humanas, reféns da noção de utilidade (usado como critério para valorar estas ações) a fim de garantir a sobrevivência de determinado grupo ou comunidade.

A moral nasce e se consolida pela imoralidade: esse é o grande paradoxo que existe nesse tema, para quem todo juízo de valor, toda determinação de virtude, toda qualidade do que é bom e melhor, não passa de uma expressão da imoralidade que está na base destes valores. É isso, no limite, o que até aqui ocultaram os filósofos da moral e se desvendarmos, mostrando que toda moral carrega em suas origens impulsos hostis, que não precisam ser subtraídos ou dissimulados, ou ainda embelezados romanticamente, mas devem ser aceitos como parte da vida e como tal contribuintes na sua expansão. Não existe uma moral universal, que valha para todos os homens em todos os tempos, como quiseram muitos dos moralistas até hoje: se a moral é resultado da demanda da vontade de poder – portanto, de um tipo fisiológico – e ela nasce da interpretação e da abolição da idéia de texto, então ela é arrolada pontualmente num determinado estado momentâneo do conflito constante das forças. Assim, os moralistas até então generalizam onde não se deve generalizar, já que o “bem-estar geral” é uma falácia e não passa de um “vomitório”, e “o que é justo para um não pode absolutamente ser justo para outro, que a exigência de uma moral para todos é nociva precisamente para os homens elevados. O nivelamento moral tal como se dá no Cristianismo e também no movimento democrático, tido por ele como “herdeiro do movimento cristão” lembra que, apesar de tentar negligenciá-lo – está baseada na concepção hierárquica das forças atuantes entre os homens, a partir da idéia mesma do mundo como vontade de poder. Se há diferenças de forças atuando em diferentes tipos fisiológicos, então é preciso aceitar que há diferentes morais, ou, que há uma hierarquia “entre moral e moral”.

O fator gregário da obediência é transmitido mais facilmente como herança, em detrimento da arte de mandar. O fato é que os que mandam, cada vez em menor número, ou desaparecerão ou sofrerão com a ilusão de que também, ao mandar, estão submetidos as ordens mais antigas e elevadas, passando a reproduzir assim o modo-de-pensar-do-rebanho, aparecendo como ‘primeiros servidos do povo’ ou ‘instrumentos do bem comum’. A democracia, por temor ao espírito de comando, apenas “substitui os comandantes pela soma acumulada de homens de rebanho sagazes”. As constituições representativas não fazem mais que substituir o indivíduo comandante por uma coletividade comandante e, neste sentido, continuam reféns da necessidade de obedecer.

A obediência é parte da hierarquia e é preciso que esta seja reconhecida como uma condição humana – e não negada em nome da igualdade do rebanho – o problema está no fato de proliferarem-se os que obedecem e desaparecerem os que mandam, ou seja, a moral do rebanho, ao expandir-se como moral vigente, expande também o instinto da obediência e nega, conseqüentemente, de forma a suprimir, o instinto de comando. Aceitar a hierarquia entre os homens e entre as morais é denunciar esta expansão do instinto gregário da obediência e resgatar o instinto de comando como elevação do tipo homem. Por isso existem várias morais, a moral dos fracos (escravos) e uma moral dos fortes (senhores).

O filósofo, aquele que reconhece seu pensamento como apenas “imprevistas centelhas e prodígios da solidão”. Enfim, ao novo filósofo cabe a ter atitude, não o que veio para pastorear, mas para desgarrar ovelhas e abrir mentes.

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